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segunda-feira, junho 24, 2024

Vozes da Bola: Entrevista com o bom baiano da ‘Terrinha’ Bobô, campeão Brasileiro pelo Bahia, em 1988, e com passagens pelo Flamengo e Fluminense

Quando ouviu pela primeira vez os versos “Quem não amou a elegância sutil de Bobô?” – um dos refrões da música ‘Reconvexo’, composta por Caetano Veloso em 1989 e interpretada por Maria Bethânia, Raimundo Nonato Tavares da Silva, quase não acreditou.

O apelido, que ganhara ainda na infância, por conta da irmã bebê, que não conseguia pronunciar seu nome, era eternizado pelo compositor baiano, no mesmo ano em que ele se eternizava como ídolo do Esporte Clube Bahia.

O filho de Florisvaldo Tavares da Silva, o Seu Flori, e Antonieta, a Dona Tieta, se transformou num dos maiores ídolos da história do Bahia, chegou à Seleção jogando num time do Nordeste, fato raro na história futebolística do país e foi campeão Brasileiro em 1988, pelo Bahia.

Em meio à pandemia de coronavírus, Bobô que está isolado na sua ‘terrinha’ conversou por telefone com a reportagem do portal ‘Lado de Cá’ e deu seu depoimento para a série ‘Vozes da Bola’.

Como foi o seu início de carreira?

Como profissional foi na Catuense-BA, aos 17 anos, e no amador em Senhor do Bonfim, onde nasci, jogando o campeonato intermunicipal. Competição muito importante, quando eu tinha 14 anos. Foi a primeira oportunidade que tive no futebol, e que me levou para jogar por quatro anos na Catuense, de Lagoinhas.

Quem foi sua grande inspiração no futebol?

Eu tive dois grandes jogadores como referências no passado: Zico e Careca. O Careca, que jogou no Guarani, e depois no São Paulo, era um meia-direita, grande jogador, qualidade técnica muito grande, eu adorava vê-lo em campo, além de ter sido inspirador. O outro foi o Zico, que é referência para todo mundo, não só como atleta, mas também como cidadão. O Zico passava coisas boas para todos, além de jogar muita bola. Para mim, especialmente, era referência como jogador e com seu comportamento dentro e fora de campo. Esses dois foram minhas maiores referências no futebol.

Qual a importância de Evaristo na conquista do Brasileirão prlo Bahia em 1988 e como foi trabalhar com ele?

O Evaristo foi um dos grandes responsáveis pela conquista de 88. Não só do título em si, mas também da montagem da equipe. O Bahia era um time que veio montado de 86, 87 e 88, mas quando o Evaristo chegou em 87, ele mudou a forma de jogar da equipe, mexeu em algumas peças do time e ousou na forma de jogar. Tornou a equipe agressiva e que jogava um futebol veloz, alegre e para frente. O Bahia se prevalecia do conceito de futebol adotado pelo nosso treinador. O Evaristo foi um grande técnico, particularmente, um dos mais importantes do futebol brasileiro. Nós sabemos muito da sua importância naquela conquista e sabemos o quanto não foi fácil assumir o Bahia, no Nordeste, ganhar de todo mundo e se tornar campeão. Foi em um momento difícil, porque pouco se pagava aos treinadores, ainda mais times menores ou do Nordeste, mas ganhamos graças ao grande trabalho dele e da comissão técnica.Tenho um orgulho muito grande de ter convivido com ele, além de ser um amigo.

Em 1988 você estava em grande fase e ganhou o prêmio da Bola de Prata. Foi o melhor ano da sua carreira?

O ano de 88 foi muito importante para mim. Além de ganhar o título de campeão Brasileiro, ganhei a Bola de Prata e fui escolhido pela ABCD (Associação Brasileira de Cronistas Desportivos) como o melhor jogador daquele ano. Isso me levou a ser convocado para a Seleção Brasileira. Não tenho dúvida alguma de que foi um grande ano e vivi um grande momento na carreira. Quando você tem a oportunidade de conquistar um título Brasileiro, jogando por um clube do Nordeste e se destacar, obviamente, a gente tem que estar agradecido também.

Você passou a ser convocados para a Seleção Brasileira, mas não teve muitas chances com o Sebastião Lazaroni. O que aconteceu?

Eu tive três com (Sebastião) Lazaroni, mas foi um ano difícil, pois naquela época, chegar à Seleção já era muito difícil, sobretudo jogando em um clube do Nordeste. Na verdade, se convocava mais jogadores do Sul e Sudeste, né? Nesse ano, nós fomos um pouco mais ousados e o Bahia foi o melhor time do futebol brasileiro, sagrando-se campeão e a CBF, tinha por obrigação convocar alguns jogadores do nosso time. Eu tive essa chance em algumas oportunidades, e o Charles e Zé Carlos, também. Mas falaram oportunidades maiores naquele ano e acho que nós três poderíamos ter ao menos, jogado uma Copa América. Infelizmente, ele (Sebastião Lazaroni) já havia definido o grupo que iria disputar a competição. Disputei alguns jogos que antecederam a Copa América, em amistosos, contra o Peru, o Paraguai, enfim… mas ele já havia definido o grupo que disputaria a Copa América e desse grupo, 80, 90% ria para a Copa do Mundo da Itália, em 1990.

Caetano Veloso, célebre torcedor tricolor, eternizou a ‘elegância’ de Bobô no futebol, na música ‘Reconvexo’. Como foi virar música do compositor baiano?

Pois é. Isso é uma honra muito grande para mim ser cantado em versos por Caetano Veloso, numa música linda por sinal, a ‘Reconvexo’. Até hoje é um sucesso na voz de Maria Bethânia. Brinco, dizendo que estou imortal por conta dessa música e dessa homenagem que ele fez. Sou muito grato e algumas vezes estive com ele e agradeci por esse momento, essa grande homenagem. É claro que a gente fica orgulhoso com isso, afinal de contas, estou sendo homenageado por Maria Bethânia numa composição de Caetano Veloso. Aproveito essa entrevista para agradecer aos dois, mais uma vez, por eu ser imortal (risos).

Como tem enfrentado esses dias de isolamento social devido ao coronavírus?

Esse isolamento tem sido difícil para todo mundo, ou seja, ficar isolado não é bom. Ficar sem poder cumprimentar, conversar, e abraçar as pessoas, não é legal. São mais de quatro meses desse isolamento social, e é claro que, o início foi mais fácil do que tem sido agora, mas está dando para levar. Acho que é a única maneira ainda que temos de superar esse vírus e manter esse isolamento social. Sair, só se for extremamente importante, usar máscara e álcool em gel sempre. Eu tenho feito isso mas na expectativa da gente voltar ao nosso ‘novo normal’.

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