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terça-feira, maio 28, 2024

“Luiz Carlos de Carvalho: A Vanguarda da Contracultura Niteroiense em Cores e Formas”

Foto: Divulgação

Pintor e desenhista que passeou por diversas influências, como a pop art, a xilogravura, o concretismo, a foto linguagem, a arte digital, o taoísmo e o grafite, Luiz Carlos de Carvalho é uma artista visual rebelde, inquieto, que respira a vanguarda da contracultura niteroiense em seu dia a dia, cultivando o inconformismo, mostrando as contradições do sistema, de uma forma geral. Sempre envolvido com a formação de novos profissionais, teve três passagens como diretor do Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, em Niterói.

Niteroiense nascido no bairro do Fonseca, em 6 de novembro de 1952, Luiz Carlos Carvalho começou a sua longa carreira em 1973 publicando cartoons no jornal ‘O Fluminense’ e em jornais de bairro da cidade. Chegou a publicar um desenho no lendário jornal ‘O Pasquim’. Filho de Francisco de Carvalho e Silva Filho e Mercedes de Carvalho e Silva e aluno do Liceu Nilo Peçanha, o artista enveredou-se no mundo das artes cedo, aprendendo com o pai, que lhe deu “régua, caneta e compasso”.

Luiz Carlos diz que mesmo sem um diploma conseguiu construir sua carreira de artista visual. “Sou autodidata mesmo, não concluí nenhuma formação universitária. Durante minha carreira, aperfeiçoei meus conhecimentos e meu trabalho frequentando cursos, palestras, seminários”, afirma. Em 1973, iniciou seus estudos em Artes Visuais e História da Arte num curso de verão do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, tendo aulas com Aluisio Carvão, Décio Vieira, iniciadores do movimento concretista no Brasil.

De acordo com Luiz Carlos, o curso de Belas Artes não era uma boa opção nos anos 1970, por conta da ditadura militar. Ele frequentava o MAM, a biblioteca e as exposições, mas lamenta que, na sua própria cidade, Niterói, não havia ‘ninguém para dialogar’: “Fui mais ligado ao pessoal da fotografia e do fanzine, no universo underground”.


Fixando-se no desenho, começou a trabalhar com o concretismo, usando nanquim sobre schoeler, linhas pretas em nanquim sobre fundo branco. Também sofreu influências de Sérgio Campos Melo, que trabalhava com Kitsch, começando a trabalhar usando guache, terra, chapinha e uma infinidade de opções.

Ainda em 1973, como estudante no MAM, com Jones Alberto expôs seus trabalhos no Museu Antônio Parreiras (MAP), que pela primeira vez abriu suas portas para artistas contemporâneos. “Fui convidado por Adelmana Torreão, relações públicas do museu, que estava organizando a exposição. Levei para ela os trabalhos que tinha, que foram pendurados na parede. Os jornais badalaram muito a exposição, mas reconheço que na época, não tinha nada de concreto que pudesse apresentar”, afirmou com humildade o artista.

Mas isto lhe serviu de estímulo, que continuou seus estudos até que surgiu a II Mostra de Artes Visuais do Estado do Rio de Janeiro, a MAVERJ, e a 12ª Bienal Internacional de São Paulo. “Nessa época já tinha uma proposta mais madura e trabalhava com nanquim e papel, seguindo a linha do concretismo. Fiz dois trabalhos para a II MAVERJ e quatro para a Bienal de São Paulo. Os dois primeiros passaram na Mostra e outros dois foram para a Bienal”. O governo do Estado pagou sua estadia, alimentação e passagem. “Entrei com o pé direito numa vernissage, numa bienal internacional, em plena ditadura”, recorda-se.

Luiz Carlos então sentiu que realmente estava no caminho certo quando o mesmo crítico que arrasou sua primeira exposição no MAP, elogiou estes trabalhos, dizendo que havia neles muita inventividade. Nesta época já sentia grande influência da arte conceitual, body-art e foto linguagem.

Em 1975, na ‘Bara-Babu Boutique’, no Ingá, abriu a exposição ‘Pindorama e Civilização Contemporânea’. Em 1978, participou como delegado e Presidente da Comissão de Amostragem de Arte no I Encontro Nacional de Artistas Plásticos Profissionais ABAPP/FUNARTE no Rio de Janeiro. De 1978 a 1981, frequentou os cursos de gravura em metal na Oficina do Museu do Ingá, em Niterói, tendo como professores José Assumpção Souza, Anna Letycia, Solange de Oliveira, Mário Dóglio e Carlos Martins; e Xilogravura com Newton Cavalcanti. Em 1979 organizou o I Encontro de Artistas de Niterói, no Museu do Ingá.

Em contato com o Neoconcretismo e a Poesia Visual, nos anos 70, Luiz Carlos se identificou com a geometria sensível. Como nasceu em 1952, pode vivenciar a Pop Art desde o seu surgimento e, depois, refletir sobre o impacto que esta provocou nas artes visuais e história da arte.

Navegando nessa tradição concreta, Luiz Carlos fez das formas geométricas uma espécie de marca registrada. Já dominando com perfeição a técnica do pastel e aquarela, depois de expor seus trabalhos na Daltro Galeria, em 1983, passou a se dedicar exclusivamente a pintura, fotografia e arte digital, realizando eventos e exposições no seu atelier em São Domingos.

Em 1980 expõe “Pinturas e Gravuras” na Galaria de Arte Divulgação e Pesquisa, no Rio de Janeiro. No ano seguinte “Gravuras e Desenhos”, na Galeria Funarte Macunaíma, também no Rio de Janeiro. Em 1983, “Pastel e Aquarela”, na Galeria Daltro, em Niterói.

Ministrou cursos de xilogravura na Oficina de Gravura do Ingá, entre 1978 e 83, e pintura no Centro Cultural Paschoal Carlos Magno (CCPCM), espaço cultural no Campo de São Bento que dirigiu pela primeira vez de 1989 a 1995. Boa parte da trajetória artística do artista passa pelo CCPCM. Foi ele quem fez o primeiro logotipo do espaço. “Fui convidado, antes, para dar aulas de pintura e xilogravura, cheguei a atuar como coordenador de artes visuais. Com a entrada do prefeito Jorge Roberto Silveira, passei a dirigir o centro”, destaca.

Em 1993 é convidado pela Prefeitura de Niterói a realizar dois painéis ao ar livre: ‘Alegria de Viver’ (3x21m) em Jurujuba e ‘Vista de Niterói’ (4x40m), na Marquês do Paraná, em frente ao hospital Antônio Pedro.

“Foi uma experiência gratificante, porque me apresentaram um problema para o qual eu teria de buscar a solução visual que melhor se adequasse àquele recanto, na época um local em escombros. Fiz cerca de 43 projetos em pequeno formato e selecionei três para a escolha final da Prefeitura”, conta o artista. “A intenção era oferecer um conforto visual para quem passa e quem se utiliza daquele local como área de lazer, como também aos usuários do hospital. Por este motivo o título do painel é ‘Alegria de Viver'”.

Em 1998, produziu também o painel ‘Descobrimentos’ (4x30m), inaugurado em Portugal Pequeno, e, para um pequeno largo criado após as obras de ampliação da Avenida Roberto Silveira, pintou o painel “Celacanto Provoca Maremoto”, na esquina com a Rua Cinco de Julho. Ainda em 1998, expôs 12 telas e uma escultura na mostra ‘Céu Sobre a Terra’, no Museu do Ingá.

Sempre na vanguarda, buscando uma nova abordagem, o artista foi aos poucos abandonando a linguagem geométrica silenciosa, fria e imóvel para se deixar levar pela emoção e calor que surgem da pincelada ao acaso, quando o artista dialoga com a tela através do pincel. Ele mesmo dá pistas desse processo: “A partir de 1995, comecei a usar as estruturas do ‘I Ching’ em interpretações livres. Mas a identificação com a filosofia taoista começou ainda mais cedo, na minha formação de artista concreto, que busca a pureza da linguagem, a simplificação das formas e da própria vida”, ressalta.

Em 2002 abriu a exposição “Pinturas”, no Espaço Cultural Conselheiro Paschoal Cittadino, em Niterói. Em 2006, “Arte Digital”, no Espaço Reserva Cultural, em São Paulo.

A busca do calor e da sensualidade nessa nova fase se reflete nas cores de suas telas. Luiz Carlos usa tons quentes, que vão do ouro ao vermelho, passando pelos marrons, surgidos de pigmentos indianos e até mesmo do barro vermelho da Boa Viagem. Do Oriente também vieram a nobreza e a luxúria do ouro e do cobre. O artista passou também a trabalhar com pintura corporal, usando materiais nacionais e importados, além de pigmentos colhidos no solo de Minas Gerais.

É novamente convidado a dirigir o Centro Cultural Paschoal Carlos Magno em 2005, ficando até 2008, ano em que é eleito Conselheiro de Artes Plásticas no Conselho Municipal de Cultura de Niterói. Em 2010 é eleito para o Colegiado Setorial de Artes Visuais do Ministério de Cultura na área de mediação. Em 2013, volta a dirigir o CCPCM e é reconduzido para o Colegiado Setorial do MinC. Em 2016 levou para o Museu do Ingá algumas de suas técnicas, formas e cores com a exposição “Luiz LeBarba – à Gauche”. Foram 40 obras, entre elas: pinturas e grafites em papel, tela e latas de spray.

Antenado com as experimentações tipicamente urbanas do século XXI, Luiz Carlos passou a cultuar a liberdade de enfrentar os desafios através do street art. “A pintura concreta é muito limpa e isso me incomodava, queria soltar meu gesto como se ele estivesse aprisionado. Quando erro, incorporo meus erros e crio várias camadas. Brinco que a tela parece para mim a pele do corpo humano enquanto a pele do corpo urbano são os muros e paredes”, conta.

Nestas décadas de produção artística, diversas exposições individuais e outras tantas coletivas, no Brasil e em países como França, Portugal, Espanha, EUA, Paraguai e Argentina, alguns movimentos foram importantes como referência para ele. “A Pop Art, a Arte Conceitual, o Construtivismo Concreto e Neoconcreto, e a Nova Objetividade Brasileira”, lembra, citando que começou nas artes através do desenho. “Pelo desenho me identifiquei com o pensamento construtivo na arte e comecei a trabalhar de forma a seguir o pensamento concreto”.


Depoimentos

“Luiz Carlos de Carvalho tem se afirmado como um artista inquieto e preocupado com todos os possíveis caminhos a serem eventualmente seguidos por seu trabalho. De um inicio ainda tímido e hesitante, percorreu, sucessivamente, estágios cada vez mais complexos de um estudo ligado à compreensão e à análise de algumas das principais fontes da cultura brasileira. E, claro, que a validade desses estágios não foi perfeitamente homogênea ressentindo-se, em certos momentos, da maturidade que a experiência faz adquirir com o acúmulo de novas informações. A despeito de habitual inabilidade das galerias de arte niteroiense em detectar boas exposições para seus calendário era tempo que prestassem atenção para a obra de Luiz Carlos de Carvalho, modo pelo qual fariam uma duplamente acertada escolha: uma boa exposição e um endosso à propriedade de seus propósitos culturas simultaneamente” (Carlos Maciel Levy, Dez 1975).

“Mais que isso, Luiz Carlos de Carvalho tem ousado deixar para trás uma vida inteira de artista, solidamente construída às sombras das vertentes geométricas que dominaram a arte brasileira por décadas, como se se permitisse viver uma segunda vida. Talvez resida aí, nesta travessia de quem abandona uma casca calcificada e empedernida, o ponto de maior intrepidez de Luiz Carlos de Carvalho, um artista reconhecido no campo da pintura moderna que se lança por inteiro em novas experiências, que se oferece às imprevisibilidades do mundo, por entre rabiscos e pichações, sem temer a vida e seus riscos”. (Luiz Sérgio de Oliveira, abril de 2016)

Exposições individuais

1980 – “Pinturas e Gravuras”, Galeria de Arte Divulgação e Pesquisa, Rio de Janeiro RJ
1981 – “Gravuras e Desenhos”, Galeria Funarte Macunaíma, Rio de Janeiro RJ;
1983 – “Pastel e Aquarela”, Galeria Daltro;
1987 – “Arraial D’Ajuda”, Galeria Studio 13;
1990 – “Pinturas”, Saladeria Art Vert, no Plaza Shopping, Centro, Niterói;
1991 – “Têmperas Vinícolas”, Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, Icaraí, Niterói;
1993 – “Louca Carreira ou Entre a Ordem e o Caos”, Sala José Cândido de Carvalho.
1998 – “Céu Sobre Terra”, Museu do Ingá
1999 – “Influência Orientais”, Aliança Francesa de Icaraí
2002 – “Pinturas”, Espaço Cultural Conselheiro Paschoal Cittadino, Niterói RJ
2006 – “Arte Digital”, Reserva Cultural, São Paulo, SP.
2016 – “Luiz Le Barba” – à Gauche, Museu do Ingá, Niterói RJ

Tags:Luiz Carlos de CarvalhoCarlos Maciel Levy

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