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segunda-feira, junho 24, 2024

Zenon, ídolo do Guarani e Corinthians, abre seu coração em entrevista para o Vozes da Bola

O destino, involuntário, sempre conduziu a vida do catarinense Zenon de Sousa Farias, hoje com 66 anos. O primeiro sinal disso, e que mudaria pra sempre os caminhos do então moleque, que gostava de jogar bola em campos de várzeas, mas nunca pensara em ser jogador de futebol profissional, aconteceu em 1971. Pois é, para quem pergunta qual o significado do nome Zenon: Zenon significa poderoso e gentil, e deriva do grego antigo.

Na versão polonesa, Zenon corresponde a Zenão. Zenon de Cítio foi um filósofo grego, discípulo de Sócrates da Democracia de Atenas, na Grécia.

Zenon de Sousa Farias foi um craque de bola, contemporâneo e companheiro do Doutor Sócrates na ‘Democracia Corinthiana’.

O destino é f…

Zenon já tinha 17 anos quando foi levado por um ‘olheiro’, para um teste no Grêmio, de Porto Alegre.

Recebeu o ‘não’ de um treinador da base do clube gaúcho e voltou para suas ‘peladas’ em Santa Catarina.

Dias depois foi assistir a um treino do Hercílio Luz, tradicional clube da cidade portuária de Tubarão.

Quis o destino – olha ele aí de novo -, que faltasse um jogador para completar os ’11’ do coletivo.

Zenon foi chamado para sair de trás do gol e entrar em campo, de onde só saiu 20 anos depois, após ‘pendurar as chuteiras’.

Em entrevista para a série ‘Vozes da Bola’, Zenon rememora sua história dentro dos campos, desde sua ascensão e glória no improvável escrete do Guarani de Campinas, campeão brasileiro em 1978; fala sobre uma mágoa com Telê Santana por tê-lo preterido em convocações para as Copas de 82 e 86; destaca sua brilhante passagem pelo Corinthians; e revela uma frustração por não ter jogado no Flamengo ao lado de Andrade, Adílio e Zico.

Por que você apareceu tão tarde para o futebol? Como foi o seu início de carreira?

Minha carreira no futebol só começou quando eu tinha 17 anos, no segundo semestre de 1971, quando eu nem pensava mais em ser jogador de futebol. Estava nas arquibancadas assistindo a um treino do Hercílio Luz, clube da cidade de Tubarão, próximo à Florianópolis, quando me chamaram para completar o time reserva porque faltava um jogador. Depois daquele treino fui convidado para fazer parte da equipe.

Mas, você então já jogava bola, né? Tem a história de que você foi rejeitado no Grêmio.
Explica aí essa história. O que aconteceu?

Então, eu tinha 17 anos e já estava ‘velho’ para começar uma carreira de jogador. Mas, no primeiro semestre de 1971, um senhor me viu jogando em times de várzeas, e me convidou para ir treinar no Grêmio, para ficar uns dez dias. Quando cheguei, o treinador demonstrou sua predileção por jogadores robustos, fortes. Eu era magrinho, pesava 50 quilos. Ele me disse: “Olha, você bate bem na bola, tem boa visão de jogo, sabe jogar, mas é muito franzino para o nosso clube”. Foi isso.

Azar do Grêmio, né!? Mas do Hercílio Luz você foi para o Guarani?

Zé Carlos, Renato e Zenon | Foto: Acervo Gazeta Press

Não! O Guarani surgiu na minha vida devido às grandes atuações que tive lá no Avaí, em Florianópolis, para onde fui depois do Hercílio Luz. Cheguei no Avaí em 1972 e fiquei três anos, onde fui bicampeão Catarinense. O Guarani foi o clube que acreditou no meu futebol e negociou com o Avaí a minha compra. Por isso que eu vim para Campinas.

Camisa 10 do Guarani, campeão brasileiro de 1978, e camisa 10 da ‘Democracia Corinthiana’ no início dos anos 1980. O que representaram os dois clubes em sua carreira?

Guarani e Corinthians representaram muito na minha vida. Ambos me deram uma credibilidade, uma representatividade em termos de me denominar craque de futebol. Até hoje sou lembrado pelos amantes desse esporte, por ter vestido as camisas do Bugre e do Timão.

Suas atuações no Guarani lhe credenciaram a vestir a camisa da Seleção Brasileira. Foram quatro partidas no ano de 1979, inclusive duas válidas pela Copa América. O que faltou para você ter uma continuidade com a ‘Amarelinha’?

Verdade! A primeira partida foi contra o Ajax; depois duas contra a Bolívia, uma contra a Argentina e outra contra o Paraguai, quando fiquei na reserva, lá no estádio Defensores del Chaco, em Assunção. Ou seja, cinco participações na Seleção Brasileira, sendo quatro atuando e uma no banco de reservas. No entanto, não tive mais oportunidades na Seleção Brasileira, porque o técnico que entrou após o (Cláudio) Coutinho, não gostava de mim, simplesmente.

Como assim? O técnico era o Telê Santana!

Na verdade, ele não ia com a minha cara, e até hoje, não sei se foi birra que criou, pois eu contra os times dele, sempre tive grandes atuações. Posso te citar como exemplo, a Libertadores de 79, contra o Palmeiras que ele treinava, e onde fui um dos responsáveis pela a eliminação dele, fazendo um gol na vitória de 4 a 1, no Morumbi, e um dos gols no Brinco de Ouro, quando o Guarani venceu por 2 a 0. Então, acho que ele pegou uma cisma comigo, e em virtude disso, não me levou, tanto em 82 na Espanha, quanto em 86 no México, quando vivia grande fase no Atlético Mineiro.

Ao lado de jogadores como Sócrates, Casagrande, Biro-Biro e Wladimir, você viveu o movimento Democracia Corinthiana – um dos grandes marcos da história do futebol brasileiro. O que isso representou na sua vida?

Paulinho e Zenon aparecem em pé, Sócrates e Casagrande agachados, e Biro-Biro deitado. | Foto: Arquivo/Internet

Vestir o manto corinthiano não é para qualquer um, convenhamos, e sei que todo atleta profissional, sonha em jogar no Timão. Eu tive esse privilégio e acho que fui vitorioso, nesses quatro anos e meio em que vesti aquela camisa. Fui bicampeão estadual, chegamos em duas finais de Brasileiro. Foi uma passagem maravilhosa, memorável e inesquecível, ainda mais por ter participado da Democracia Corinthiana. O Corinthians é tão especial em minha vida, que me colocou novamente na Seleção Brasileira, como camisa 10, com a braçadeira de capitão, em um jogo contra uma Inglaterra, no Maracanã, com quase 100 mil pessoas.

Você foi um exímio cobrador de faltas. Se considera o maior de todos eles ou teve alguém que batia melhor que você?

Olha, na minha época, nas décadas de 70 e 80, todo clube tinha um grande batedor de faltas. Eu sou considerado um deles, e fico muito feliz. Eu treinava muito, mas muito mesmo, e após os treinos costumava ficar uns 40 minutos cobrando faltas, e às vezes, de forma exaustiva. Infelizmente, hoje não temos grandes batedores de faltas. O melhor que eu vi, acima de mim, de Zico, de Dicá, de Roberto Dinamite, de Mendonça, de Ailton Lira, de Pita, de Juninho Pernambuco, de Marcos Assunção, de Neto, e outros que agora não lembro, chama-se Marcelinho Carioca.

Defina quem é Zenon?

Genial em campo e fora dele, escolhido por Deus.

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