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domingo, junho 16, 2024

Rio ganha primeiro memorial físico às vítimas da Covid-19 do Brasil

No pico da pandemia do novo coronavírus a arquiteta Crisa Santos peregrinou pelos cemitérios do Brasil em busca de histórias para fundamentar as suas pesquisas no campo da neuroarquitetura, aplicada por ela de forma inédita no setor cemiterial.

O resultado ganhou forma concreta: um monumento em aço oxidado – de 39 metros lineares e 2,7 mil kg – com design que rompe as barreiras linguísticas para homenagem as famílias que perderam entes queridos para a Covid-19.

A obra, batizada de Memorial In-finito, está sendo instalada em uma área verde de 1,3 mil m2 do Crematório e Cemitério da Penitência, no bairro do Caju, na Zona Portuária do Rio, e será entregue à população carioca no dia 20 de setembro, nas comemorações do movimento O Mundo Unido pela Vida, que acontece em mais de 30 países para celebrar a vida.

O projeto arquitetônico foi doado pelo Coletivo Crisa Santos Arquitetos à direção do Cemitério da Penitência, que investiu R$ 300 mil na execução da obra. A concepção do memorial começou em junho e envolveu cerca de 50 profissionais de diversos estados e áreas de atuação. A peça passou por processo industrial e ganhou curvas e relevos, antes de desembarcar no dia nove de setembro no Cemitério da Penitência, onde vai passar pelas etapas de fundação e paisagismo. A área da intervenção foi revitalizada para receber o projeto.

As famílias podem fazer parte do monumento deixando os nomes dos seus entes na obra. “Diferente da função de um memorial, esse foi concebido para homenagear todas as pessoas que não tiveram o direito de se despedir das pessoas que amam, através dos ritos fúnebres”, salienta a autora.

O administrador do Cemitério da Penitência, Alberto Brenner Júnior, acrescenta que o memorial é extensivo às famílias fluminenses, independente do local onde os entes foram sepultamentos. “Vamos acolher todas as pessoas que quiseram conhecer a obra e também fazer parte dela”, afirma Brenner Jr.

O memorial

A estética fluida da escultura é uma metáfora à eternidade. Erguida em módulos, a obra é composta por desenhos em espiral e linhas circulares que têm como significado a perenidade. A arquitetura inclui bancos e passagens que dão o sentido de pertencimento do mundo.

“A idealização da obra a céu aberto foi para oferecer um local em que os visitantes possam meditar e se conectar com quem partiu. Isso ajuda a ressignificar a morte, especialmente na pandemia, que inviabilizou as despedidas”, explica Crisa, que possui especialização em neurociência pela PUC/RS e há dez anos estuda o comportamento de enlutados, em parceria com médicos, psicólogos e outros especialistas.

A fase de execução do projeto envolve profissionais de diversos ramos, como engenheiros, projetistas, equipe especializada em calandragem para as dobras das chapas, serralheiros para a montagem das peças modulares, além de eletricistas, equipe de jardinagem e pedreiros, que estão atuando na revitalização do local da instalação do memorial.

“Esses profissionais receberam treinamento e sabem o significado do luto e do ambiente cemiterial”, destaca a arquiteta.

Na visão da idealizadora da obra, o Memorial In-finito é uma semente no processo de conscientização de que o cemitério deve ser um lugar de vivências e continuidade das histórias e de memórias.

Unidos pela Vida

No dia em que cemitérios e funerários do mundo todo participam de um movimento em valorização da vida, o Crematório e Cemitério da Penitência promove, das 10h30 às 12h00 do dia 20 de setembro, uma celebração ecumênica em memória das pessoas que faleceram no período da pandemia.

O administrador do Cemitério explica que será realizada uma cerimônia denominada ‘Forever’, com leituras textuais acompanhadas de som de flauta, vídeo com projeção de imagens das pessoas falecidas, minuto de silêncio, painel de mensagens e aplauso aos que se foram.

“Convidamos os familiares das pessoas aqui sepultadas nesse período pandêmico para participar dessa homenagem, seja online através de transmissão em nossas redes sociais ou presencialmente, com restrição de número de participantes e adoção de diversas medidas de segurança contra a Covid-19”, observa Brenner Jr.

O administrador da Penitência revela que também serão feitas homenagens para aqueles que trabalham no setor funerário e cemiterial.

“Essas pessoas foram ‘guerreiras’, verdadeiros heróis, pois dedicaram a entender os sentimentos das famílias, a acolhê-las com carinho e respeito, abdicando até mesmo da convivência com os seus familiares, já que precisavam preservá-los”, salienta.

O movimento ‘O Mundo Unido pela Vida’ é promovido pela Associação Latinoamericana de Cemitérios e Funerárias (Alpar) desde 2012, em mais de 30 países. Esse ano, participam da campanha Argentina, Colômbia, Japão, República Dominicana, Austrália, Costa Rica, México, Rússia, Bolívia, Equador, Mongólia, Cingapura, El Salvador, Nicarágua, África do Sul, Bulgária, Espanha, Nova Zelândia, Uruguai, Canadá, Estados Unidos, Panamá, Venezuela, Chile, Guatemala, Paraguai, Zimbábue, China, Israel e Peru.

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