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Lugar de mulher é no ringue, no tatame, onde ela quiser…

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Multicampeã, Michele Borges concilia treinos e campeonatos com a maternidade, apesar das dificuldades

Na divisão do trabalho o papel de cuidar do lar e dos filhos coube à mulher. Em se tratando de esporte, chegaram a ser proibidas de assistir. Praticar? Nem pensar! No Brasil, bem próximo da atualidade, chegou a ser proibida a prática de esportes para mulheres. Veja:

“Art. 54. Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país” (DECRETO-LEI Nº 3.199, DE 14 DE ABRIL DE 1941).

Em 1965, o Conselho Nacional de Desportos decidiu que: “Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo-aquático, pólo, rugby, hanterofilismo e baseball”. (Deliberação nº 7)

As próprias mulheres que, aos poucos, começaram a modificar esse quadro, se inserindo no meio esportivo, apesar do preconceito dos homens e até mesmo de outras mulheres. Preconceito que diminuiu consideravelmente, mas que ainda existe. Principalmente quando uma mulher se torna mãe e a maioria ainda acha que seu papel, agora, é somente tomar conta do lar e dos filhos, porque o papel de cuidadora do lar ainda recai sobre os ombros das mulheres, mesmo daquelas que trabalham fora para ajudar na renda da família. E essa é uma das principais razões que acabam afastando muitas mulheres do meio esportivo. A cobrança é muito grande e muitas acabam desistindo de seus sonhos.

Mas esse não é o caso da multicampeã Michele Borges que, apesar de ser mãe de três filhos, manteve seu treinamento e o foco de se tornar uma atleta reconhecida por seus títulos, além de acumular graduações em mais de um estilo de Arte Marcial, sendo: Grau Preto e Branco de Muaythai (mestre), Faixa Marrom de Kickboxing, Faixa Azul de Jiu-Jitsu e Faixa Branca de Luta Livre.

O interesse pelas artes marciais surgiu desde cedo quando, aos 4 anos de idade, sua mãe a levava para o Balé. No entanto, o seu desejo era praticar o Judô. A mãe não deixava. Dizia que era esporte de menino e que teria que continuar no Balé. E foi dessa forma até 2002, quando Michele começou sua jornada no Muaythai com o mestre Anderson França da AFteam, em Nova Friburgo, quando fez sua estreia em eventos de luta.

Em 2008, a atleta conheceu um professor que mudou sua vida! O professor era nada mais nada menos do que o grande campeão e treinador que já foi tema desta coluna, Michel Lopes! Michele, inicialmente, se apaixonou por seu estilo de luta e o fez seu treinador. Mais adiante, acabou se apaixonando pelo treinador e fez dele seu marido, pai de seus filhos, e brinca com o ocorrido: “Eu treinava Muaythai conciliando com duas faculdades, Direito e Educação Física. Com esse pouco tempo, tive que casar com o professor, se não, como é que treina? Rsrs”.

Atualmente, Michele mantém seus treinamentos com os professores de todas as artes que pratica: Com Michel Lopes, na Equipe Templários, da APKB (Associação Pioneira de Kickboxing) treina Muaythai, MMA, BeachBoxe e Kickboxing, com mestre Barta, da Família Barta, treina Jiu-Jitsu e com mestre Wallace treina Luta Livre. Os treinos acontecem no CT Blackshields, em Rio do Ouro.

Apesar de sua garra, um triste acontecimento, em 2011, fez com que Michele encerrasse sua carreira de lutadora, ao ser tomada por uma forte onda de sentimentos, depois de perder sua filha Alice, que “virou um anjinho”, diz a atleta. Somente com muita conversa e apoio de seu mestre e marido, retornou aos treinos e a Arte Marcial a fez perceber que ainda possuía muita força para voltar a competir. E o ano de 2016 foi de vitórias, nos conta: “Conquistei cinturões e medalhas tanto no Kickboxing quanto no Muaythai e tive o prazer de ser convocada para o evento profissional WRK (Warriors Rio Kombat) pelo mestre Capitulino Gomes. Tenho um cartel com 20 lutas, sendo 16 vitórias e 4 derrotas, com lutas entre Muaythai, Kickboxing e Beachboxing.”

Mãe de terceira viagem, com Ana Paula de 16 anos, João Rodrigo de 8 anos (que também já entrou para o mundo das artes marciais) e o Miguel Hunter de 7 meses, Michele concilia os treinos com as funções da maternidade, mas declara que não é fácil:

“O cansaço que tinha antes é pouco em relação ao que tenho hoje! Tem dias que chego em casa já muito cansada mas ainda tenho que dar atenção para meus filhos. Maternidade é um desafio difícil e as responsabilidades aumentam muito. Para quem é pai, a vida pode continuar a mesma, mas para quem é mãe a vida muda bastante. Nossa mente, nosso corpo, tudo muda! Eu amo tudo o que faço e, assim, consigo ficar de pé, apesar da batalha diária com as artes marciais. Meus filhos são meu afago! A maternidade me dá uma força maior. Só quem tem filhos sabe que força é essa!”

Michele fez do que muitas considerariam o impossível, sua força e motivação para continuar lutando, literalmente, por seus sonhos. E, no próximo ano, pretende estrear no MMA. A atleta está batalhando muito pra melhorar sua luta de chão e afiar ainda mais a trocação: “Tenho certeza que com a ajuda que tenho da equipe que faço parte (Equipe Templários), meus filhos, mestres e amigos alcançarei mais esse sonho tão esperado.”, finaliza.

Não restam dúvidas de que Michele Borges irá, mais uma vez, se superar e alcançar seus objetivos, além de se tornar uma inspiração para muitas mulheres que precisam de uma força para compreender que a maternidade não anula seus sonhos e que podem, desde que se dediquem, se esforcem, se tornar o que desejarem ser.

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